A tecnologia deixou de ser um acessório para a prática jurídica. Hoje faz parte de sua estrutura, uma aliada estratégica que transforma a maneira como concebemos, exercemos e acessamos o Direito. Essa conexão profunda, ou melhor, esse cruzamento entre o jurídico e o tecnológico, tem um nome que tem ganhado destaque nos últimos anos: Legaltech.
Falar de Legaltech não é mais falar do futuro, mas do presente. E dentro desse presente, um novo capítulo começa a ser escrito com a irrupção da inteligência artificial. Não estamos apenas diante de uma oportunidade de automatizar tarefas repetitivas. Agora também podemos ampliar nossa visão como advogados, fortalecer a capacidade de análise, antecipar riscos, oferecer soluções mais ágeis e acessíveis para aqueles que precisam de serviços legais, e, acima de tudo, repensar nossa profissão desde o que sempre deveria ser sua essência, um serviço comprometido com as pessoas.
Do presente digital ao Legaltech em ação
Legaltech refere-se às ferramentas tecnológicas projetadas para melhorar a prestação de serviços jurídicos. Em termos simples, são aplicativos que ajudam o advogado a trabalhar melhor, mais rapidamente e com mais precisão. Alguns se concentram em automatizar processos básicos, como a geração de documentos, a gestão de processos ou o acompanhamento de prazos. Existem até soluções que permitem analisar informações jurídicas em grande escala, como bases de dados legislativas ou doutrinárias, embora essas funcionalidades mais avançadas anunciem a chegada de tecnologias ainda mais poderosas, que exploraremos mais adiante.
Não se trata apenas de tornar o trabalho mais rápido. Também se trata de torná-lo mais acessível, transparente e centrado naqueles que procuram uma resposta oportuna. Tudo isso faz sentido real quando melhora a experiência do cliente, do cidadão ou do usuário do sistema legal.
Embora nesse ecossistema ainda esteja em construção no Equador, já se evidenciam esforços valiosos por parte de universidades, escritórios de advocacia e startups que estão explorando essas soluções. O importante é entender que Legaltech não representa uma ameaça para o advogado. Pelo contrário, é uma oportunidade para concentrarmos nossa energia no que é verdadeiramente estratégico, a análise jurídica, a prevenção de conflitos e a defesa eficaz dos direitos.
Por mais de uma década, o Legaltech tradicional permitiu avanços relevantes. Gerar contratos automaticamente, assiná-los digitalmente, organizar processos ou monitorar processos judiciais já foi um salto significativo em termos de eficiência e controle.
A inteligência artificial muda as regras do jogo
Mas quando a essas ferramentas é incorporada inteligência artificial, a mudança não é apenas de grau, mas de natureza. Passamos do terreno do automatizável, ou seja, tarefas repetitivas que podem ser programadas, para o terreno do cognitivo, que envolve tarefas que exigem interpretação, redação, comparação, formulação de alternativas ou até mesmo antecipação de problemas. Por exemplo, hoje existem sistemas capazes de ler contratos e alertar sobre possíveis riscos legais ou inconsistências. Outros podem gerar rascunhos de documentos jurídicos com base em modelos anteriores. Alguns até oferecem sugestões com base em tendências jurisprudenciais.
Essas ferramentas não funcionam por mágica. Elas se baseiam em tecnologias que analisam enormes volumes de texto, aprendem com eles e ajudam a tomar decisões com mais informações e melhores critérios. É como ter um assistente que leu milhares de documentos e é capaz de apontar o mais relevante em segundos.
Para quem isso serve? Para todos. Para o advogado independente que precisa acelerar a redação de documentos em casos semelhantes. Para pequenas empresas que precisam de aconselhamento jurídico, mas não podem pagar grandes escritórios. Para os departamentos jurídicos que precisam interagir com áreas de negócios em ambientes exigentes. Para as instituições públicas que precisam monitorar a conformidade regulatória. Para os estudantes de Direito que aprendem em ambientes digitais. Em suma, para todos aqueles que entendem que a tecnologia não substitui o Direito, mas o potencializa.
Como Gerente Jurídico e professor universitário, não me considero um especialista em inteligência artificial, mas estou ativamente envolvido em um processo de aprendizado, análise e avaliação crítica sobre seu impacto no ambiente jurídico. Nos últimos meses, participei de fóruns e congressos internacionais, onde pude conversar com empresas de Legaltech, assistir a demonstrações ao vivo e conhecer de perto soluções que já estão sendo implementadas em outros países. A isso se soma a revisão constante da literatura especializada e o diálogo com colegas de diferentes jurisdições. Hoje compartilho o que estou aprendendo, como uma forma de continuar refletindo em conjunto.
Explorei ferramentas que detectam cláusulas de risco em contratos por meio de técnicas que imitam a forma como interpretamos a linguagem. Isso é conhecido como processamento de linguagem natural, um ramo da inteligência artificial que permite que os sistemas compreendam e gerem texto de maneira semelhante a uma pessoa. Também estudei tecnologias que redigem documentos com base em modelos anteriores, usando algoritmos que aprendem com cada exemplo processado. Existem painéis que permitem visualizar e priorizar riscos legais, dependendo do tipo de empresa ou do país em que opera, bem como plataformas que analisam milhares de sentenças judiciais para identificar padrões que podem ser estratégicos para uma defesa.
Ética e mentalidade, as chaves da transformação
A tecnologia nunca é neutra. Suas aplicações envolvem decisões, e essas decisões têm consequências. Portanto, além do entusiasmo, devemos manter um olhar ético. O que fazemos para proteger os dados das pessoas? Como prevenimos os preconceitos que podem ser replicados nos algoritmos? Como garantimos que a IA não substitua o julgamento humano quando estão em jogo decisões sensíveis?
Essas perguntas são necessárias. O componente ético não é uma opção adicional, é o eixo que deve orientar a transformação digital do Direito.
Legaltech com inteligência artificial não substitui o advogado. Mas exige uma nova forma de pensar. Uma mentalidade mais aberta, crítica e interdisciplinar. Hoje não basta apenas saber Direito. Também é fundamental compreender as tecnologias que ampliam nosso alcance e nossa capacidade profissional.
Este não é um caminho apenas para especialistas em tecnologia. É um chamado para aqueles que exercem o Direito e querem fazê-lo melhor. Não podemos esperar que as condições sejam ideais para nos envolvermos nessa transformação. A evolução já começou.
Legaltech não é o fim. É um meio, um meio para nos aproximarmos de uma prática jurídica mais humana, eficiente e acessível."
Legaltech em evolução: do software jurídico para a era da inteligência artificial
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CARLOS ALBERTO CABEZAS DELGADO

A tecnologia já não é um acessório para o Direito, é parte de sua coluna vertebral. Este artigo discute como o Legaltech potencializado pela inteligência artificial está redefinindo a prática jurídica, ampliando suas capacidades, humanizando seus serviços e exigindo uma abordagem ética e interdisciplinar por parte dos que exercem a advocacia.